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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Cartas de Camilo e Antero de Quental a Alberto Sampaio reunidas em livro


A grande amizade e cumplicidade que o historiador Alberto Sampaio mantinha com Antero de Quental, a relação de cordialidade com Camilo Castelo Branco, as descobertas na arqueologia partilhadas com Martins Sarmento e os debates de história e política com Oliveira Martins estão agora expressos em livro, no primeiro volume de “Cartas a Alberto Sampaio”, que reúne a correspondência dirigida ao historiador no período entre 1864 e a data da sua morte em 1908. A obra que será apresentada no próximo dia 14 de Novembro, pelas 17h30, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, inclui, ao todo, 216 cartas. A apresentar a obra estará o presidente do Centro Nacional de Cultura, Guilherme d'Oliveira Martins.

Cobrindo praticamente toda a vivência adulta de Alberto Sampaio, a obra dá a conhecer as relações de trabalho e amizade mantidas com diversas figuras da cultura portuguesa, desde os seus 22 anos, à época em que concluiu os estudos em Coimbra, à fugaz passagem por Lisboa, e até ao regresso ao Minho, mais precisamente à sua Quinta de Boamense, em Vila Nova de Famalicão, onde morreu aos 67 anos de idade.

O universo das pessoas com quem se relacionou e que assinam estas cartas é a todos os títulos notável, desde simples amigos dos tempos de Coimbra como José Falcão, irmãos Faria e Maia, António de Azevedo Castelo Branco, Alberto Teles, Pinto Osório e Inácio de Vasconcelos, passando pelos que pontificaram no círculo de Guimarães como Francisco Agra, Joaquim José de Meira até aos que na época e nos mais diversos domínios, marcaram a “intelligentsia” nacional, filósofos, poetas e escritores (Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Luís de Magalhães, Jaime de Magalhães Lima), historiadores (Oliveira Martins, Gama Barros, Abade de Tagilde, João Gomes de Abreu de Lima), arqueólogos e etnólogos (Martins Sarmento, José Leite de Vasconcelos, Rocha Peixoto, José Fortes, Ricardo Severo), enologistas (Abílio da Costa Torres e José Macedo Souto Maior), jornalistas (Bento Carqueja), filólogos e orientalistas (Guilherme de Vasconcelos Abreu e Aniceto dos Reis Gonçalves Viana).

Com toda esta plêiade de figuras suas contemporâneas, Alberto Sampaio estabeleceu uma correspondência, em cuja riqueza de conteúdo se espelha a plenitude intelectual de uma geração. Com 420 páginas, o livro “Cartas a Alberto Sampaio”, conta com organização, introdução e notas de Emília Nóvoa Faria e António Martins, e tem a chancela da Campo das Letras. O lançamento da obra insere-se nas comemorações do centenário da morte de Alberto Sampaio, que envolve os municípios de Famalicão e Guimarães, a Sociedade Martins Sarmento e o Museu Alberto Sampaio, e decorrem até ao final do ano de 2008.

Organizada em dois volumes, “Cartas a Alberto Sampaio” e “Cartas de Alberto Sampaio”, esta edição inclui um importante acervo documental de correspondência inédita proveniente do Arquivo Municipal de Alberto Sampaio e do Fundo Documental da Casa de Boamense, em Vila Nova de Famalicão, para além de cartas depositadas na Biblioteca Nacional, no Museu Nacional de Arqueologia, na Biblioteca Marciana de Veneza e outras que foram facultadas pelas famílias de João Gomes de Abreu Lima e de Jaime de Magalhães Lima.

domingo, 20 de julho de 2008

Na morte de Alberto Sampaio (Notícia de O Regenerador)


Nota necrológica do jornal O Regenerador, do Padre Gaspar Roriz, publicada no dia 4 de Dezembro de 1908:

Na sua casa de Boamense, freguesia de Cabeçudos, Famalicão, faleceu no dia 1 do corrente o ilustre vimaranense e notável publicista, snr. Dr. Alberto Sampaio, irmão do falecido Dr. José Sampaio, que foi notável advogado nesta cidade e tio do actual juiz de direito na comarca de Esposende, snr. Dr. António Vicente Leal Sampaio.

É uma morte que nos enluta a lodos os que prezamos a honra da nossa terra.

Alberto Sampaio fez parte duma plêiade distinta de poetas e publicistas, figurando em destaque ao lado dos mais exímios cultores da moderna literatura portuguesa.

A sua colaboração em diferentes revistas científicas, especialmente na “Portugalia”, a brilhante publicação de Ricardo Severo, e na “Revida”, da Sociedade Martins Sarmento; o seu valioso estudo acerca das vilas do norte de Portugal, ultimamente publicado em volume, revelam uma cerebração privilegiada, um talento superior, um trabalhador infatigável.

O único cargo que exerceu foi o de guarda-livros do Banco de Guimarães, onde todos o respeitavam pela bondade do seu coração, pela limpidez do seu carácter e pelo seu profundo saber.

Sempre modesto e recolhido, ele só shiu para a rua a trabalhar com um afã verdadeiramente benemérito, quando Guimarães resolveu realizar a sua exposição industrial em 1884, cuja importância lhe veio, quase toda, do saber e da actividade de Alberto Sampaio.

E a terra onde este homem era menos conhecido era talvez a terra onde nasceu – Guimarães – que ele ilustrou e honrou com um nome que o país declina com veneração e respeito!...

A câmara exarou na acta da última sessão um voto de sentimento pela morte do ilustre vimaranense. Cumpriu o seu dever e interpretou o sentir dos que admiraram o talento do dr. Alberto Sampaio.

“O Regenerador” consigna também o seu pesar pela irreparável perda deste homem que, depois de Sarmento, foi a mais lídima glória da nossa terra nas lutas da pena e da cultura da ciência.

Os funerais do Dr. Alberto Sampaio realizaram-se ontem, em Cabeçudos, indo daqui assistir alguns cavalheiros.

À família enlutada, e, especialmente, ao snr. Dr. Leal Sampaio, apresentamos os cumprimentos do nosso profundo pesar.

(O Regenerador, n.º 2, ano I, Guimarães, 4 de Dezembro de 1908)

[Também publicado aqui]

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Na morte de Alberto Sampaio (notícia do Independente)


A notícia publicada pelo jornal o Independente, de Guimarães sobre a morte e as cerimónias fúnebres do historiador Alberto Sampaio introduz alguns elementos interessantes, a par de pequenas imprecisões, nomeadamente a referência ao seu local de nascimento.


Dr. Alberto Sampaio


Em Vila Nova de Famalicão faleceu na terça-feira passada, vitimado por uma febre tifóide, na Quinta de Boamense, na freguesia de S. Cristóvão de Cabeçudos, o snr. Dr. Alberto da Cunha Sampaio, primoroso escritor e distinto agricultor.

O ilustre morto, que residia no Porto, ia amiudadas vezes a Cabeçudos – sua terra natal – de visita à sua estimadíssima família.

Era irmão do falecido jurisconsulto dr. José da Cunha Sampaio, e tio do nosso prezadíssimo amigo snr. Dr. António Vicente Leal Sampaio, distinto juiz de direito na comarca de Esposende.

Carácter nobilíssimo e trabalhador infatigável, o finado foi um dos maiores propugnadores e cooperadores da Exposição Industrial que se realizou em Guimarães em 1884, podendo dizer-se que foi ele a alma da notável Exposição.

À Sociedade Martins Sarmento, bem como a outras colectividades vimaranenses, também o dr. Alberto Sampaio prestou assinalados serviços.

O dr. Alberto Sampaio, que era uma das nossas mais altas capacidades mentais, deixa dispersa na “Revista de Guimarães”, e noutras revistas e jornais, uma obra literária e histórica importantíssima

Os actos fúnebres realizaram-se anteontem, pelas 10 horas da manhã, na igreja paroquial de Cabeçudos, sendo o cadáver do extinto depositado em jazigo da família no cemitério paroquial daquela freguesia.

Em diferentes turnos que se organizaram de casa à igreja e da igreja ao jazigo, seguraram as toalhas do caixão os snrs.: Visconde de Pindela, Abade de S. Cosme, José de Azevedo Menezes, dr. Sebastião de Carvalho, António José de Sousa Cristino, António Veloso, dr. Pedro Guimarães, dr. Álvaro Ribeiro da Costa Sampaio, Abade de Tagilde, dr. Joaquim José de Meira, cónego dr. Manuel Moreira Júnior, cónego Alberto da Silva Vasconcelos, Álvaro Costa Guimarães, Eduardo M. de Almeida, Jerónimo de Castro, João Gualdino Pereira, por si e como representante do sr. dr Avelino Germano da Costa Freitas, António Leal de Barros e Vasconcelos, José Ferreira Ramos José Francisco Gonçalves Guimarães, Joaquim Malvar, Joaquim Mendes, Álvaro da Silva Penafort e António Barreira.

Por recomendação do finado, o cadáver do morto foi conduzido à mão pelos filhos dos caseiros da Quinta de Boamense, e o caixão foi fechado em casa pelo snr. Dr.,António Vicente Leal Sampaio, sobrinho do falecido.

Por o extinto assim o ter manifestado muitas vezes, não houve convites para o enterro, nem foram depostas coroas no féretro, sendo o funeral foi o mais modesto possível.

Dirigiu o funeral o snr. Joaquim Penafort Lisboa, digno escrivão do 4.º ofício no juízo de direito desta comarca.

O falecido deixou testamento cerrado aprovado pelo notário snr. J. Penafort no qual institui seus universais herdeiros a seus sobrinhos dr. António Vicente Leal Sampaio e D. Henriqueta Leal Sampaio.

Sentindo profundamente o passamento do dr. Alberto Sampaio, enviamos expressivas condolências a toda a família enlutada e especialmente a seu sobrinho, o nosso querido amigo snr. dr. Leal Sampaio.

(O Independente, nº 365, 8.º ano, Guimarães, 5 de Dezembro de 1908)


[Também publicado aqui]

domingo, 1 de junho de 2008

Feliciano Ramos, sobre Alberto Sampaio e o espírito do lugar

"Alberto Sampaio era um paladino da terra de Entre-Douro-e-Minho, tinha o culto desta nação milenária. A fim de compreender a sua devoção histórica pelo Norte, não é indiferente uma romagem a Guimarães, sua cidade natal. Uma vez lá, convirá subir ao alto da colina histórica, que domina o povoado urbano, onde se fixa o rude e bravio rochedo, símbolo da nossa sólida e irremovível vitalidade. Aí se nos deparará essa relíquia militar das origens da Nação, o castelo de Guimarães com as torres quadrangulares, que projectam no céu a sua dentadura granítica; também se evocará, para além da sobriedade decorativa e escultórica da capela românica de S. Miguel do Castelo, as inquietações religiosas da gente da Fundação. Uma vez perante os Paços dos Duques de Bragança, que, na sua imponência arquitectónica, espelham ainda o vasto poder senhorial de outros tempos, descer-se-á até ao Claustro de S. Domingos, para lá memorar o passado pré-histórico de Portugal e as aspirações autonomistas das velhas populações do Minho. Depois disto, é ainda indispensável, para bem compreender o homem de Entre-Douro-e-Minho através dos tempos, percorrer o Museu de Alberto Sampaio, cujo recheio artístico e arqueológico é, em grande parte, um valoroso legado da gente do Norte. A leitura atenta dos Estudos Históricos e Económicos de Alberto Sampaio será magnificamente iluminada por esta romagem histórica, que é um dever para todos os portugueses."

Feliciano Ramos, Alberto Sampaio e a subjectividade das suas interpretações históricas, Coimbra, 1946, pp. 21-22.

domingo, 18 de maio de 2008

O terramoto da Andaluzia de 1884

No dia 25 de Dezembro de 1884, quando a noite já tinha caído, a Andaluzia foi abalada por um terramoto que causou mais de 800 mortos e 1500 feridos, deixando atrás de si um imenso rasto de destruição. Esta catástrofe daria origem a uma enorme campanha de solidariedade, que se estendeu desde a Europa até à América.

Assim foi também em Guimarães, onde, ao longo do mês de Janeiro de 1885, houve preces pelas vítimas do terramoto, que culminaram no dia em passou um mês sobre o desastre, no qual saiu da igreja de S. Domingos uma procissão de penitência, conduzindo, num andor, a imagem de Nossa Senhora dos Terramotos em andor, que terá sido acompanhada por uma multidão de mais de 6000 pessoas.

No dia 12 de Fevereiro, realizou-se, no teatro de D. Afonso Henriques, um baile de máscaras em benefício dos povos de Andaluzia. Segundo então noticiou o Comércio de Guimarães, o baile teve uma assistência extraordinária” e “o teatro achava-se decorado com muito gosto, principalmente os camarotes da 2.ª ordem”. À porta tocou uma banda de música até à meia-noite. A sessão entrou pela noite dentro, tendo sido dançada a última quadrilha às três horas da madrugada. O escritor Bráulio Caldas ofereceu então à comissão organizadora do evento “um formoso bouquet de sonetilhos”, que foi vendido em benefício das vítimas do terramoto.

Nesse dia, começou a circular o número único do jornal Guimarães-Andaluzia, publicação em Benefício das Vítimas dos Terramotos na Espanha, pela Comissão de Socorros Vimaranenses em que colaboraram 44 autores vimaranenses. Entre eles, contava-se Alberto Sampaio, com o seguinte texto:

Conto popular

Duma vez, uma pobre mulher tinha um filho, que chegou a ser bispo ou arcebispo.

Quando isto aconteceu, era já muito idosa e vivia numa cabana, longe da cidade.

Mas o filho, logo que subiu a tal honraria, mandou por ela e trouxe-a para o paço, onde a velhinha era tratada a primor, com todas as grandezas devidas à mãe de um príncipe da Igreja.

Apesar de tudo, a coitada sentia-se mal. Não estava em sua casa: faltava-lhe a liberdade do seu lar, o agasalho e o calor da sua fogueira.

Começou a pedir que n levassem outra vez para a sua terra, e tanto disse que o bispo mandou reconduzi-la à sua antiga vivenda.

Chegada lá, e despedidos os grandes que a acompanhavam, a boa velha fechou-se por dentro, acendeu o fogo na lareira abandonada, assentou-se no seu escabelo, e, pondo-se à vontade, desabafou em alta voz:

“Ah, minha casa, meu lar! Quem te fadou, não te fadou mal.”

~*~

Os desgraçados, que V. com o seu óbolo, vão ajudar a readquirir o home destruído, ainda que não conheçam o mote do povo português, dirão todavia no seu coração:

“Bem hajam os que nos auxiliaram a reconstruir as nossas casas, os nossos lares.”

Guimarães, Janeiro do 1885.

Alberto Sampaio.


sábado, 17 de maio de 2008

Alberto Sampaio e o Plano Geral das Escolas de Instrução Primária de Guimarães

Num texto que escreveu sobre a Exposição Industrial de Guimarães de 1884, Avelino da Silva Guimarães descrevia Alberto Sampaio como sendo “dotado de inteligência viva e muitíssimo cultivada, especialmente em estudos económicos. Sem ocupações profissionais, cheio de ardor e de brio, caracteristicamente trabalhador”. À imagem de outros homens da cultura do seu tempo, como Francisco Martins Sarmento, Alberto Sampaio não exercia nenhuma profissão (a não ser quando montou banca de advogado em Lisboa, logo após a formatura em Coimbra, ou quando, por breve tempo, trabalhou no Banco de Guimarães). No entanto, era, repetindo as palavras do seu amigo Avelino Guimarães, “caracteristicamente trabalhador”. Ao longo da sua vida, assumiu diversas causas públicas e desempenhou missões cuja incumbência aceitou em prol do interesse comum .

Em 1869, integrou a filial de Guimarães da Associação Arqueológica de Lisboa.

Em 1873, ajudou a fundar, a Companhia dos Banhos de Vizela.

No início de 1881, integrou a comissão que a Câmara de Guimarães incumbiu da missão de avaliar as vantagens da introdução no concelho de vides americanas resistentes à filoxera.

A partir desse mesmo ano, deu uma contribuição fundamental para a fundação e instalação da Sociedade Martins Sarmento, à qual prestou serviços relevantes.

Em 1883, fez parte da comissão encarregada pela Câmara de seleccionar os produtos que seriam levados à exposição Agrícola de Lisboa, que se realizou em Maio desse ano.

Em 1884, organizou, com reconhecida eficácia, a Exposição Industrial de Guimarães, promovida pela Sociedade Martins Sarmento.

Para além das suas contribuições para a cidade onde nasceu e viveu a maior parte da sua vida, Alberto Sampaio também contribuiu para, pelo menos, um projecto de dimensão nacional, a proposta de Lei de Fomento Rural de Oliveira Martins, de 1887.

Alberto Sampaio esteve ainda ligado ao desenvolvimento do ensino em Guimarães, uma das principais preocupações da Sociedade Martins Sarmento, que nasceu como Promotora da Instrução Popular. Em 1883, integrava, com o Conde de Margaride e o Padre António José Ferreira Caldas, a Junta Escolar de Guimarães, a quem coube organizar o plano geral das escolas de instrução primária e respectiva distribuição pelas freguesias do concelho, em conformidade com uma lei de 2 de Maio de 1878. A Câmara Municipal, então presidida por António Coelho da Mota Prego, aprovaria este plano no dia 8 de Agosto de 1883, remetendo-o para o inspector distrital da instrução primária em 1 de Setembro seguinte. Porém, em vez de lhe ser dado andamento, o projecto “dormiu em Braga cerca de quatro anos, na inspecção distrital, no meio dos papéis inúteis e abandonados”, conforme se escreverá no Boletim da Sociedade Martins Sarmento de Maio de 1894.

Em 1897, o plano esquecido voltou novamente à Câmara. Por essa altura, tinha sido publicado um ofício do Governador Civil do Distrito de Braga que impedia a criação de novas “escolas elementares sem que haja sido aprovado o respectivo programa”, que suscitou uma proposta de António Mota Prego, onde, depois de concluir que, “a avaliar pelo que tem sucedido, determinadamente com o antigo plano elaborado pela Câmara em 1883, e perdido na inspecção de Braga sem seguimento até 1887, calculo que não poderemos gozar tão breve o melhoramento que as necessidades da instrução pública reclamam e a Câmara com tão boa vontade aprovou”, propõe a instalação, com carácter provisório, de uma “escola de ensino público, em que se professem a gramática portuguesa, rudimentos de corografia e história de Portugal, princípios elementares de aritmética, geometria e sistema métrico”.

A nova escola começou a funcionar no dia 1 de Outubro de 1887, numa sala alugada num edifício da rua de Gil Vicente e com mobiliário do Instituto Escolar da Sociedade Martins Sarmento.

No Boletim da Sociedade Martins Sarmento de Junho de 1894 encontrámos um elogio ao professor da Escola Primária Elementar, no qual transparecem as preocupações pedagógicas daqueles que, como Alberto Sampaio, lideraram o movimento que operou uma revolução na oferta escolar de Guimarães, desde o ensino das primeiras letras ao ensino técnico e liceal:

“Sem melindre de outros, por igual inteligentes e zelosos; folgámos em poder dizer, por observação repetida, que o professor da escola municipal tem honrado a confiança que a câmara nele depositou.

Não será difícil encontrar indivíduos, profundamente conhecedores das matérias que se compreendem no programa da cadeira que foi posta a seu cargo. Mas o que não é tão fácil de encontrar, é quem disponha assim de paciência, de benevolência de serenidade, de amor pelas crianças que lhe são confiadas.

Cada criança aprende mais depressa ou mais devagar, mais fácil ou mais dificilmente segundo a capacidade natural da sua inteligência. Do seu trabalho, do seu estudo depende muito, é certo, mas não depende tudo.

Pretender medi-las todas pela mesma craveira é sempre absurdo. Mas, por desgraça, é o que mais usualmente sucede.

E, não raras vezes, se ouve falar do triste espectáculo de um mestre, que procura iluminar brutalmente, à pancada, o cérebro dos seus alunos, que a natureza não fez tão vivo, tão perspicaz ou tão feliz.

Estes processos violentos surtem sempre mau efeito.

Não só essas barbaridades são improdutivas para o fim que se deseja, mas sucede ainda mais que a criança maltratada a cada passo não achando na sua organização, intelectual forças que a eximam a esta tortura de todos os dias, acaba por se desalentar, por se modificar e perverter no seu carácter ao mesmo passo que lhe fogem os últimos restos da viveza intelectual, e a saúde física se compromete e depaupera.”

terça-feira, 1 de abril de 2008

Memória de Alberto Sampaio, por Jaime de Magalhães Lima

Jaime de Magalhães Lima

"Grandes individualidades puderam formar e reger grandes governos, mas só a grandeza dos povos significará e alimentará a grandeza das nações. O primeiro acto de uma nova e mais justa concepção da história nacional será libertar-nos do fetichismo das individualidades e contemplarmos as energias da grei, tal qual aprendemos na lição magnífica que Alberto Sampaio nos legou."

Jaime de Magalhães Lima

Na noite de 7 de Abril de 1924, o escritor de Jaime de Magalhães Lima proferiu na Sociedade Martins Sarmento uma conferência sobre "Alberto Sampaio e o significado dos seus estudos na interpretação da História Nacional", onde analisou a relação que Sampaio tinha com a história de Portugal, ao mesmo tempo que nos deixa um testemunho impressivo da personalidade do historiador das Vilas do Norte de Portugal:

"Li um dia a Alberto Sampaio algumas passagens das Memórias de Kropotkine; falavam da ignorância simples e da obtusidade moral dos magistrados que se achavam à frente da administração do império moscovita e registravam a opressão, miséria e abandono do povo. Ouviu com atenção o libelo temeroso e eu, que lho repetia mais por lhe mostrar a finíssima arte de contar que ali estava, tão singela, que por lhe solicitar a simpatia com a desgraça que em sua substância patenteava, encontrei-o muito mais inclinado a reflectir na rectidão da causa que o comovia do que enlevado na perfeição da arte que a exprimia. Sob o homem tranquilo, regrado, sereno, pacífico e modesto habitava o apóstolo dos humildes que não se apavorava com os anátemas do anarquismo e antes lhes sentia a justiça e cogitava os remédios.

Por esse mesmo tempo – era isto no Verão de 1908 – uma noite, no vaguear da palestra verificámos que nas minhas jornadas pelo Minho já havia passado próximo de propriedades suas. E então falou-me delas. Visitava-as pouco. A casa estava deserta; não tinha lá família e não a tendo onde outrora a encontrava, aqueles lugares só lhe acordavam saudades e mágoas. Andavam entregues aos caseiros. Não sabia nem queria averiguar do zelo com que eram tratadas, nem da inteireza com que lhe era apartado o seu quinhão, e da possibilidade de acrescentar o rendimento. Havia quem dissesse que era muito prejudicado, mas estava lá gente que há muito morava lá e carecia daquilo para seu sustento. Não ia inquietá-la. E o mais da sua bondade resumiu-o num gesto de abdicação.

Na história, não o tentaram investigações de erudição pela erudição, nem especulações filosóficas, nem esplendores da arte, nem labirintos diplomáticos, nem quanto cativa o orgulho dos temperamentos aristocráticos; correu direito à morada dos humildes, ao labor e canseiras dos servos da gleba, fervorosamente as contemplou desde as origens até àquela hora em que as tinha diante dos olhos a tirar da terra o pão com o suor do rosto. Por certo poderia dizer com Wordsworth que “o amor procurou-o nas choupanas dos pobres. Seus mestres, de todos os dias, foram as árvores e os ribeiros, o silêncio que habita o céu estrelado, a paz que mora entre outeiros solitários”. “Nos jardins, disse-me, nada o cativavam as plantas exóticas. A todas as estranhas preferia as da nossa terra. Nenhumas achava mais belas que as nossas árvores com seus renovos da Primavera e a nudez austera dos Invernos”."

Jaime de Magalhães Lima, Alberto Sampaio e o significado dos seus estudos na interpretação da História Nacional. Conferência realizada na Sociedade Martins Sarmento, de Guimarães, em a noite de 7 de Abril de 1924. Guimarães, Edição da Sociedade Martins Sarmento, págs. 54-55.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Influência de Martins Sarmento na obra de Alberto Sampaio

Francisco Martins Sarmento e Alberto Sampaio

Alberto Sampaio referia-se a Francisco Martins Sarmento como o meu sábio amigo. Não faltam testemunhos da amizade que o uniu ao arqueólogo da Citânia de Briteiros, que se estreitou quando, já bacharel, Alberto Sampaio regressou a Guimarães e que se prolongou até à morte de Sarmento. No texto introdutório que escreveu para a edição de 1923 dos Estudos Histórico e Económicos de Alberto Sampaio, Luís de Magalhães descreve a génese da obra historiográfica do autor das Vilas do Norte de Portugal e a influência que nela exerceram os trabalhos de Martins Sarmento:

“A esse tempo, escavando as citânias, remexendo nas suas ruínas, Martins Sarmento, com o seu vasto saber, a sua extraordinária perspicácia, as suas subtis intuições, decifrava, à luz da moderna ciência, esses enigmas arqueológicos, espalhados tão profusamente na região de Entre Minho e Douro. As suas investigações, alumiadas pela clareza dos raciocínios, revelavam toda uma estratificação histórica desaparecida, um mundo extinto, uma civilização fossilizada que fora como a raiz profunda e obscura das actuais formas da nossa vida social e económica.

Amigo íntimo de Sarmento, vivendo, como ele, em Guimarães, Alberto Sampaio seguiu de perto e com apaixonado interesse os seus trabalhos, que tantos subsídios elucidativos ofereciam às questões históricas em que o seu espírito andava empenhado. E, sobre a base das descobertas do ilustre arqueólogo na parte relativa à proto-história e à etnografia, traçou, o seu primeiro livro, o magnífico estudo sobre A Propriedade e a Cultura no Minho, que, desde logo, o colocou na primeira linha dos nossos publicistas de economia rural. E tanto que Oliveira Martins, ao elaborar o seu projecto de lei de Fomento Rural (que, sendo, talvez, o maior atestado da sua vasta capacidade de estadista é, por outro lado, a prova da nossa inqualificável incúria legislativa, que o deixou dormindo o eterno sono do esquecimento na sepultura duma comissão parlamentar) recorreu à colaboração e ao conselho de Alberto Sampaio, cujo conhecimento, ao mesmo tempo teórico e prático, erudito e técnico, da agricultura no norte do país, lhe era um precioso auxílio para dar ao seu monumental trabalho aquela exequibilidade pronta e segura que deve ser o ideal de todas as criações legislativas.”

Um pouco mais adiante, no mesmo texto, Luís de Magalhães, também ele amigo e confidente de Sampaio, situa a sua obra deste modo:

“Entre a obra arqueológica de Martins Sarmento e a obra histórica de Herculano, a de Alberto Sampaio interpõe-se como um nexo, uma ligação que as conjuga, as une e lhes dá continuidade, fazendo desaparecer um grande hiato de treva, de incerteza e de ignorância.”

Texto também publicado aqui.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Alberto Sampaio, "deputado de Guimarães"


No dia 29 de Junho de 1884, quando em Guimarães decorria a Exposição Industrial, com Alberto Sampaio ao leme, realizaram-se em Portugal eleições constituintes. O historiador vimaranense contava-se entre aqueles cujos nomes foram então a votos.

Sobre essas eleições e os seus resultados, já muito se tem dito. Citaremos, por exemplo, o historiador Manuel Alves de Oliveira, num texto que publicou em 1984, no Boletim dos Trabalhos Históricos, num texto alusivo à passagem do primeiro centenário da célebre exposição:

"Em 29 de Junho, catorze dias depois do acto inaugural da Exposição, a que dera o melhor do seu esforço e da sua boa vontade, realizaram-se eleições constituintes, tendo sido Alberto Sampaio proposto, por um grupo dos seus amigos, deputado pelo círculo de Guimarães. Porém, e contra toda a expectativa, o que vem comprovar o carácter volúvel e impressionável das multidões sempre abertas às falsas promessas dos políticos, Alberto Sampaio só conseguiu obter 190 votos, sendo então eleito o deputado apresentado pelo Partido Regenerador, João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco, por 3 261 votos."

A história desta eleição é um pouco diferente da que tem sido contada. Na verdade, Alberto Sampaio nunca foi candidato a deputado e o seu nome foi introduzido nas urnas de voto por um número significativo de vimaranenses num gesto de homenagem e, ao mesmo tempo, de reacção contra a imposição, pelos principais partidos, de nomes estranhos a Guimarães. Isso mesmo se pode confirmar lendo a notícia que então foi publicada no jornal Comércio de Guimarães, em que se dava conta do modo como tinham decorrido as eleições em Guimarães:

"Em Guimarães a eleição correu pacífica e sossegadamente.

À última hora tocou-se a rebate nos campanários políticos, e o povinho obedeceu em rebanho.

Muitos eleitores não foram à urna; outros votaram pelo imposto regenerador, outros pelo candidato progressista, e outros prestaram a última homenagem a um nosso conterrâneo, cavalheiro modestíssimo, que empregou todos os esforços para que o seu nome não entrasse em lista alguma, obtendo, apesar disso, uma votação honrosíssima, eloquente e mui significativa.

Em algumas assembleias alguns eleitores riscavam francamente o candidato imposto e inscreviam o nome de Alberto Sampaio.

Era assim que os eleitores respondiam à imposição de um deputado estranho que foi eleito sem apresentação alguma."

[O Comércio de Guimarães, n.º 10, I ano, 2 de Julho de 1884]


Será o mesmo jornal, mais de duas décadas depois, que nos revelará com mais detalhe a história da suposta candidatura de Alberto Sampaio a deputado:

Variedades

(Apontamentos inéditos para a história de Guimarães)

Exposição Industrial

"Foi no dia 15 de Junho de 1884 que nesta cidade se inaugurou a Exposição Industrial, no palacete de Vila Flor, de iniciativa da benemérita Sociedade Martins Sarmento, exposição que foi elogiada por muitos visitantes ilustres.

Foi incansável na sua organização o snr. Dr. Alberto Sampaio, e de tal modo se houve, que um grupo de rapazes patriotas, passando por cima de todas as conveniências políticas e de interesses mesmo pessoais, não duvidaram em uma tarde, à frente de milhares de pessoas, aclamarem-no como deputado de Guimarães, pois se estava em vésperas de eleições.

Sua Exa., com aquela modéstia que de todos é conhecida, e mais seu exmo. irmão, na noite desse mesmo dia procuraram esses rapazes, e, agradecendo-lhes a lembrança, pediram-lhes que não insistissem na propaganda.

Apesar de S. Exa. não aceitar a lembrança, por motivos dignos de respeito, esses mesmos rapazes, sozinhos, na urna meteram uns 200 votos com o seu nome, de nada se receando.

Foram tempos evolutivos de progresso pátrio, que ainda hoje lembram a muitos com a maior saudade.

A exposição, por todos os motivos, foi brilhantíssima, tecendo-lhe a imprensa toda do país os maiores elogios, e foi ela, sem dúvida alguma, a causa única de ter hoje esta cidade a escola industrial."

[O Comércio de Guimarães, n.º 2049, XXII ano, 23 de Março de 1906]

Também publicado aqui...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Alberto Sampaio, correspondente em Guimarães do jornal "A Província"

Quanto Joaquim Pedro de Oliveira Martins fundou, no Porto, o jornal A Província, convidou o seu amigo Alberto Sampaio para colaborador, como correspondente de Guimarães. Foi nessa condição que o historiador vimaranense acompanhou o conflito entre Braga e Guimarães, despoletado no dia 28 de Novembro de 1885 com um manifestação em Braga contra os procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito de Braga. A questão entre as duas cidades minhotas agudizar-se-ia de tal modo que Guimarães passou a exigir a sua desanexação do distrito de Braga, passando para o do Porto. Ao longo do conflito, Alberto Sampaio assumiu a defesa dos interesses da sua terra, posição que se reflecte nos textos que vai enviando para “A Província”. Desde cedo, a questão entre Guimarães e Braga ganhou foros de luta partidária, na qual o Partido Progressista, de que o jornal de Oliveira Martins se assumia como porta-voz, se inclinava para o lado dos interesses de Braga. A certa altura, Alberto Sampaio sentindo-se magoado com a diferença de tratamento que o jornal dava às correspondências de Braga e de Guimarães sobre o conflito entre as duas cidades, escreve uma carta a Oliveira Martins em que denota a sua intenção de abandonar as funções de correspondente de A Província.

Meu caro amigo

Creio que me assiste toda a razão, como lhe vou expor. Desde que começou o nosso conflito com Braga, sabe muito bem que tanto as minhas correspondências como as daquela cidade eram colocadas na primeira ou segunda página debaixo do titulo “Conflito entre B. e Gui.es” e portanto tiradas do “correio das províncias”. Assim foi enquanto o gabinete regenerador estava no poder: quando este caiu, não me achava aqui, cheguei no dia 22 e neste mesmo dia escrevi e expedi uma correspondência que foi publicada no N.° 43. Depois de a expedir, recebi o n.º 42 e notei que já tinham mudado o primeiro título pelo de “Notícias de Braga” para a correspondência daquela localidade. Impressionou-me esta mudança e arrependi-me de a ter mandado, por se me afigurar que a questão desagradava agora uma vez que o partido progressista era governo. Era certo todavia que estava ainda na segunda página. No dia seguinte quando recebi o n.º 43 fiquei surpreendido, encontrando-a no “Correio das Províncias” em segundo lugar, quase enterrada nos anúncios. Esta colocação significou para mim e creio para toda a gente, que tal assunto não era do agrado da redacção, do que se me dava aviso por aquela via. Posto que magoado por tal tratamento entendi que me restava simplesmente indicar que tinha compreendido o aviso, o que fiz dirigindo-me, na sua ausência, ao administrador do jornal.

Tencionava logo que o soubesse regressado de Lisboa, escrever-lhe dando-lhe conhecimento da minha resolução e seus motivos.

Infelizmente não tive notícia da sua chegada a tempo de ser o primeiro a escrever. Peço-lhe que examine os n.os indicados e estou certo que me dará razão e que concordará que, dada a sua ausência, não podia proceder de outro modo.

Enfim posto de lado o correspondente da Província, o amigo é sempre o mesmo e dele disporá como sempre.

Alberto Sampaio.

Guimarães: Fev.º 27 [1886]


Em resposta a Alberto Sampaio, Oliveira Martins faria publicar, na primeira página da edição do dia 3 de Março de 1886, uma nota em que afirmava a independência de A Província no conflito que opunha Braga a Guimarães. Este texto servia de introdução a uma nova correspondência de Guimarães, em que Alberto Sampaio defende a “anexação de Guimarães ao distrito do Porto” como única solução possível para o conflito.


BRAGA E GUIMARÃES

Damos em seguida a carta do nosso prezado correspondente e amigo de Guimarães. A Província tem sido neutral nesta questão que sempre considerou administrativa e não política. Neste último terreno a colocaram indiscretamente os nossos adversários, levando a com os seus erros acumulados a um tal ponto do azedume e complicação que, no momento actual, não se poderia encontrar solução satisfatória para ambos os litigantes.

Parece-nos que, procurando bem, se encontraria um terreno de conciliação em que todos os interesses legítimos fossem atendidos, sem protrair um conflito a todos os respeitos inconveniente, quer para o país em geral, quer para a capital do distrito, quer para a briosa o nobre cidade de Guimarães onde o nosso partido tem importantes adesões o numerosas simpatias.

Para que bem se veja quanto esta questão local não é partidária basta dizer que na comissão de vigilância figuram os nomes dos snrs. visconde de Lindoso, Rodrigo Portugal, Domingos Ferreira e outros membros do centro progressista de Guimarães.


* * *

Guimarães, 3 de Março

O desejo da separação deste concelho do distrito de Braga acentua-se com a mesma, se não maior intensidade, como quando manifestou pela primeira vez.

Como ontem, continua a haver a mesma união entre todos os vimaranenses, reunidos numa única vontade. Assim foi desde o princípio, assim tem sido até agora e da mesma maneira será no futuro.

Esta questão estaria já resolvida, há muito tempo e para bem das duas partes, se se não tivessem dado os incidentes que são do conhecimento de todos.

Mas passada a perturbação do primeiro momento, e provado, como tem sido com toda a clareza, que a saída de Guimarães da circunscrição administrativa a que pertence actualmente, não lhe levanta nenhuns embaraços, pois ficará sendo ainda o 5.º distrito do reino e portanto um dos mais ricos e importantes – não havendo nenhuma razão de ordem pública ou particular em contrário do desejo do toda a população deste concelho, constante e incessantemente manifestado há mais do três meses, é fora de dúvida que a persistência mostrará aos poderes públicos a única solução possível, a anexação de Guimarães ao distrito do Porto.

Há sossego em todo o concelho, e mais que nunca são necessárias a serenidade e placidez, para que o processo possa ir seguindo os seus termos até final julgamento. Como ninguém é nem pode ser indiferente, como todos estão unidos no mesmo pensamento, as manifestações deverão ser no futuro, como no passado, ordeiras e sensatas.

[A Província, n.º 51, II ano, Porto, 4 de Março de 1886]

domingo, 20 de janeiro de 2008

Os frutos da terra em Alberto Sampaio


Sobreiral da Quinta de Boamense

A exposição “Os frutos da terra em Alberto Sampaio” leva-nos até à Quinta de Boamense, ao encontro de Alberto Sampaio, o historiador das instituições rurais. Por uns momentos, o olhar repousa no verde dos campos, nos castanhos outonais das árvores do Sobreiral, nas cores vivas dos frutos e das flores que, aqui e além, pincelam esta tela campestre. Embalam-nos os sons da litania da água do rio Pelhe, a correr ao fundo da mata, as vozes dos homens na sua faina de sol a sol, misturadas com os trinados das aves e os sons da folhagem agitada pelo vento. Envolvem-nos os aromas fortes da terra mãe.

Alberto Sampaio não resistiu ao chamamento deste palmo de terra numa aldeia do Minho onde “o sol e a chuva adormecem na mesma folha”. No recanto da sua biblioteca, de janelas abertas para o jardim da Casa de Boamense, adivinhamos as longas horas passadas na leitura e na escrita das suas obras.

Campo da Quinta de Boamense

No mundo rural que o cerca, encontra algo mais do que um simples motivo de contemplação. Da “arte de fazer vinhos” parte para mais extensas explorações nos domínios da agricultura, floricultura, fruticultura, horticultura e floresta. A sua curiosidade científica, suportada por uma enorme atracção para as actividades do campo, não tem limites. Progressivamente, aprofunda os seus conhecimentos agrários, tornando-se rapidamente uma referência a quem são solicitados pareceres e dirigidos convites para integrar comissões de estudo e de exposições. Ao “mestre” recorrem com frequência os amigos mais íntimos, como Jaime de Magalhães Lima e Luís de Magalhães, seus admiradores e interlocutores privilegiados nestas matérias, como documenta a correspondência que trocam entre si. A poda e enxertia das vides, a selecção de castas, as experiências da plantação de árvores até então quase desconhecidas em Portugal, tal como o eucalipto, novas plantas e produtos hortícolas mandados vir expressamente do estrangeiro e cuja adaptação ao “solo pátrio” é seguida com particular atenção, são temas recorrentes na correspondência e em muitos outros documentos do espólio de Alberto Sampaio.

Nos Estudos de Economia Rural publicados na Revista de Guimarães e que reúne mais tarde no livro A Propriedade e Cultura do Minho, o historiador retrata, de forma exemplar, o panorama da realidade rural da província do Minho nos finais do século XIX. Do mesmo modo O Presente e o Futuro da Vitivinicultura em Portugal, escrito em 1884, é considerado um estudo de referência, quer no conhecimento da vitivinicultura praticada na época, quer pela antevisão dos seus progressos no século 20.

É neste espaço de ruralidade, cheio dos sons, aromas e cores da Quinta de Boamense, patente nesta exposição, que mergulham as raízes de Alberto Sampaio, filho e continuador daquele Bermardino de Sampaio Araújo que nas Cortes Constituintes de 1837, se declarou honrado por “ser lavrador de nascimento […] e mesmo lavrador de tamanco”.

Emília Nóvoa Faria

Alberto Sampaio, por Manuel Alves de Oliveira

Aquando do centenário da Exposição Industrial de Guimarães de 1884, Manuel Alves de Oliveira, Director do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, historiador e monárquico convicto, publicou no Boletim de Trabalhos Históricos um artigo sobre aquele evento, no qual traçou o perfil de Alberto Sampaio que aqui se transcreve:


Em 1858 Alberto Sampaio partira para Coimbra, onde frequentou a Faculdade de Direito da Universidade, que cursou com magnífico resultado.

Muito afectivo, sempre se manifestou um homem de excepcionais qualidades, e esse afecto corria caudalosamente para a sua terra de Guimarães e demonstrava-se, por excelência, no estudo das suas origens remotíssimas. À volta deste pendor do seu temperamento se enredaram as suas investigações históricas. Amava o convívio intelectual dos grandes amigos que ele próprio havia escolhido, como Luís de Magalhães, Oliveira Martins e Antero, o famoso lírico das “Primaveras Românticas”, cuja vida foi, para Alberto Sampaio, “continuamente inspirada pelos mais nobres sentimentos”, e o levavam a ver nele “uma destas figuras morais superiores que serão sempre a glória da Humanidade”.

Alberto Sampaio apreciava em Antero a sua indiferença pelas honras e grandezas que a tantos seduziam – e seduzem – e a afeição que demonstrava pela gente simples que, como Alberto Sampaio lhe reconhecia, “constituía uma disposição que lhe era muito particular.”

Foi também um íntimo amigo de Martins Sarmento em quem admirava o seu acendrado lusitanismo e a sua paixão em desvendar os mistérios da pré-história, que mereceram ao famoso e acatado arqueólogo vimaranense dedicados estudos.

Em 29 de Junho, catorze dias depois do acto inaugural da Exposição, a que dera o melhor do seu esforço e da sua boa vontade, realizaram-se eleições constituintes, tendo sido Alberto Sampaio proposto, por um grupo dos seus amigos, deputado pelo círculo de Guimarães. Porém, e contra toda a expectativa, o que vem comprovar o carácter volúvel e impressionável das multidões sempre abertas às falsas promessas dos políticos, Alberto Sampaio só conseguiu obter 190 votos, sendo então eleito o deputado apresentado pelo Partido Regenerador, João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco, por 3 261 votos. O próprio Mariano de Carvalho, a quem em sessão de 16 de Março a Câmara resolvera consignar na acta um voto de agradecimento pelo interesse que tinha demonstrado pela criação da escola de desenho, não foi além de 4 votos...

Mas aqui, "Deus escreveu direito por linhas tortas”. Se Guimarães perdeu, para o Parlamento, um deputado vimaranense, ganhou, por outro lado, um grande historiador que no silêncio do seu gabinete de estudo se iria deter, com vagar e liberto de preocupações políticas no exame canseiroso de velhos manuscritos e antigos documentos medievos que na sua obra prima, “As Vilas do Norte de Portugal”, lhe permitiram reconstituir a história económica e agrícola anterior ao nascimento da nacionalidade, e no seu ensaio, “As Póvoas Marítimas”, apontar as primeiras sortidas que no mar foram feitas pelos portugueses do Norte, em plena Idade Média, e se tornaram o prenúncio longínquo da prodigiosa acção marítima desenvolvida por Portugal nos séculos XV e XVI.

Alberto Sampaio, insigne erudito, no retraimento da sua modéstia, nunca se deixou deslumbrar pelos fogos fátuos da popularidade. Correspondia bem ao que dele dissera D. Maria da Conceição de Lemos Magalhães, que foi esposa do Escritor e Estadista Luís de Magalhães seu íntimo amigo, “Quase pedia desculpa do seu saber e do seu valor às pessoas com quem convivia!”. Assim, quando no dia 24 de Junho os artistas e industriais, em grande número e acompanhados de duas bandas de música, depois de uma visita de duas horas à Exposição Industrial foram cumprimentar a Direcção da Sociedade Martins Sarmento, na sua casa do Carmo, e, depois, desceram à Rua de Santa Luzia para apresentarem cumprimentos ao dr. Alberto Sampaio, este não se encontrava em casa para os poder receber.

Como disse Jaime de Magalhães Lima, “o ardor e a isenção de espírito de Alberto Sampaio trouxeram-no permanentemente isolado do contacto do mundo e apartado da sua frivolidade e da sua inanidade, couraçado em mística armadura, impenetrável às efémeras superficialidades e dissipadas distracções do mundo”, concluindo que “Alberto Sampaio, o estudioso, foi, simultaneamente, um apóstolo, e a sua vida e a sua obra tornaram-se, além ide conselho seguro do entendimento, inspiração magnífica da dignidade” (1).

Escreveu Luís de Magalhães que “raramente o espírito, o carácter e o coração se terão simultaneamente elevado e equilibrado num indivíduo, como se elevaram e se equilibraram na personalidade de Alberto Sampaio”.

Pelo que em face de tudo isto devemos concluir que o Parlamento não era o lugar próprio para Alberto Sampaio, e talvez fosse essa a razão que ele decerto ambicionava, porque os vimaranenses, no acto eleitoral realizado, tivessem preferido o historiador primoroso que foi, ao parlamentar apagado e esmagado nas tricas da política, que ele teria sido.

E quando em 1892 de novo o quiseram incluir numa lista para deputados, Alberto Sampaio assim escreveu a esse seu dedicado amigo Luís de Magalhães: – “Céptico, excêntrico, cada vez mais separado do mundo, nada tenho que fazer em Lisboa, como representante de quaisquer eleitores” (2).

Mas, como historiador, não se alheou da política do seu tempo. Embora, tal como Sarmento, nunca fosse um político militante e praticante, na vulgar acepção da palavra, foi sempre solidário com o princípio monárquico e aberto às ideias liberais. E quando Luís de Magalhães fez parte do primeiro ministério franquista, colocou-se, moralmente, a seu lado.

[Manuel Alves de Oliveira, "A exposição industrial de 1884 e as suas repercussões", Boletim dos Trabalhos Históricos, Vol. XXXV, 1984, p.219-231, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães, 1984]

(1) Labor da Grei, Guimarães, pág. 58.

(2) Correspondência inédita de Alberto Sampaio, publicada e anotada pelo Coronel Mário Cardozo. (“Revista de Guimarães”, n.° 3, do vol. LI, 1941, pág. 73).

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Para uma geografia de Alberto Sampaio

Os primeiros tempos da vida de Alberto Sampaio foram passados na casa onde nasceu, na rua dos Mercadores, em Guimarães, morada do seu tio-avô José Teixeira, Cónego da Colegiada de Guimarães, que viria a falecer em 1843. Ainda falta saber onde viveu nos anos que se seguiram, mas parece certo que até aos 10 anos o essencial da sua existência terá passado por Guimarães, onde frequentou a aula de Tomás Guilherme. As primeiras aprendizagens terão sido concluídas no Colégio de João Luís Correia de Abreu, em Landim, cuja aula começou a frequentar, com o irmão José, no dia 12 de Janeiro de 1852. Entre 1856 e 1857, terminou os estudos preparatórios, primeiro no Liceu de Braga, depois no de Coimbra, onde, em 1858, se matriculou no Curso de Direito da Universidade, que concluiria em 1863.

Terminado o curso, teve uma curta passagem por Lisboa, onde tentou uma experiência frustrada de exercício de advocacia. Regressou então a Guimarães, onde passará a maior parte dos seus dias, repartidos com estadias na Casa de Boamense, onde deu aplicação prática aos seus estudos sobre agricultura e viticultura.

Em Guimarães, sabe-se que viveu na rua de Santa Luzia em casa de seu irmão José, de quem foi, nas palavras de Domingos Leite Castro, “inseparável companheiro de toda a vida”.

Pela análise da sua correspondência já publicada, é possível esboçar uma geografia da vida de Alberto Sampaio, pelo menos a partir de 1880: até ao dia 28 Março de 1900 viveu, essencialmente, em Guimarães, com algumas intermitências, quase todas passadas em Boamense.

O ano de 1899 trouxera duas perdas irreparáveis a Alberto Sampaio. Nos primeiros dias de Agosto, faleceu Francisco Martins Sarmento (escreveria então a Luís de Magalhães: “eu tenho mais razão que qualquer outro de sentir a sua morte, por ser uma das poucas pessoas com quem eu convivia aqui. Não faz ideia, como me entristece esta solidão, que todos os dias aumenta em volta de mim”). Golpe ainda mais profundo o atingiria daí a pouco: no dia 15 de Setembro, era o seu irmão José que partia (escreveria então ao seu confidente Luís de Magalhães: “Eu sei que é dever nosso reagir; mas esta falta condena-me a uma solidão que me aterra.”).

Seria esse sentimento de solidão, carregado de perda e de pessimismo, que o levaria a abandonar de vez Guimarães. No próprio dia em que preparava a partida da terra que o viu nascer e onde viveu, escreveu a Luís de Magalhães:

“Mal lhe posso escrever. As saudades do passado... creio que são elas... dilaceram-me o coração; ou o pressentimento dum futuro... que futuro?”

Dois dias depois, já em Boamense, descreveria melhor o seu estado de espírito na hora em que deixava para trás o seu “ninho de tantos anos”:

“Estava numa extrema sensibilidade; arrumava as últimas coisas do meu ninho de tantos anos: fechada a sua carta, empacotei o tinteiro: nesse momento a memória representava-me com uma luz fulgurante os castelos em mim do meu passado: e que ilusões! Hoje vou melhor: caí numa tristeza calma, que por fim também há-de desaparecer.”

Desde aquele final de Março de 1900 até ao seu desaparecimento, a 1 de Dezembro de 1908, os dias de Alberto Sampaio correram entre Boamense e o Porto, onde passava largas temporadas, acomodado em casas de hóspedes localizadas na Rua Formosa, primeiro, e na Rua da Alegria, depois. A morte apanhou-o em Boamense, na freguesia de Cabeçudos, Vila Nova de Famalicão, não obstante constar nas enciclopédias que terá falecido em Vila Nova de Gaia.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Natal de 1843: morre o Cónego José Teixeira

Zona do Castelo (no primeiro plano, terras removidas do antigo cemitério, conhecido por “Campo Santo Velho”)

25 de Dezembro de 1843: Às 4 horas da manhã faleceu o cónego prebendado José de Abreu Cardoso Teixeira, clérigo de prima tonsura, desta vila, da rua dos Mercadores, cavaleiro professo das Ordens de Cristo e Conceição, tinha 55 anos. Por disposição testamentária esteve a seu cadáver em casa no dia 26, e junto à noite foi acompanhado pelo Cabido, Ordem 3.ª Franciscana e mais algumas irmandades para o Campo Santo e aí foi dado à sepultura. P. L.

[Nota das
Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria, a partir de um apontamento do Cónego José Pereira Lopes]

O Cónego José Teixeira era tio de Emília Ermelinda, mãe de Alberto Sampaio. Foi em sua casa que, dois anos antes, nasceu o futuro historiador das Vilas do Norte de Portugal.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Do nascimento de Alberto Sampaio - 2

Emília Ermelinda da Cunha Cardoso Teixeira, natural da freguesia de Nossa Senhora da Oliveira, casou aos 27 anos de idade com o juiz Bernardino de Sampaio Araújo, originário de S. Cristóvão de Cabeçudos, no dia 25 de Maio de 1840. O casamento duraria menos de dois anos, por força do falecimento do marido. Entretanto, antes de transcorridos 18 meses sobre a data do casamento, nasceram duas crianças, primeiro José, depois Alberto.

Ao contrário do que possa parecer, nada existe que nos permita supor que, em ambos os casos, não terão sido gravidezes a termo. José nasceu 261 dias após o casamento dos pais, o que se situa ligeiramente acima do limiar inferior do tempo de referência para uma gravidez a termo (37 semanas), um pouco menos de 9 meses. Alberto nasceu 283 dias depois, o que dá um intervalo de quase 40,5 semanas. Por regra, no passado, os intervalos entre os nascimentos eram bastante mais dilatados do que este, porque, na ausência de aleitamento artificial, as crianças eram amamentadas pelas suas progenitoras durante períodos mais ou menos largos, o que, por regra, resulta num período de amenorreia (ausência de ovulação) enquanto dura a amamentação. Ora, nos estratos sociais mais altos, ao longo do nosso século XIX (e mesmo posteriormente), era comum o recurso a amas-de-leite. Assim terá sucedido, seguramente, com Emília Ermelinda, que terá entregue a amamentação do seu primeiro filho a uma ama, o que anulou a possibilidade de amenorreia por lactação. Assim se explica que, pouco tempo transcorrido após o primeiro parto, a senhora estivesse grávida de Alberto.

Nenhum mistério, portanto. Até porque não há nenhum indício de que Alberto pudesse ter tido um nascimento prematuro, uma vez que no seu registo de baptismo não há referência a que tivesse sido ensopeado, isto é, baptizado em casa, de emergência e sub conditione, conforme era uso em casos que tais. [AAN]

[Texto também publicado aqui]

domingo, 2 de dezembro de 2007

Raízes liberais de Alberto Sampaio

Bernardino de Sampaio Araújo, pai de Alberto Sampaio, era filho de Manuel Sampaio Araújo e de Ana Maria Carvalho Araújo. Nasceu na freguesia de São Cristóvão de Cabeçudos, em Vila Nova Famalicão. Cursou direito na Universidade de Coimbra, onde o apanhou a revolução liberal de 1820. Formou-se em 1822, vindo a exercer funções de procurador in partibus do Almoxarifado da Vila de Barcelos, cargo que ocupava em 1827. Tendo aderido aos ideais liberais, seria perseguido durante o período da usurpação absolutista, após a aclamação de D. Miguel, acabando por emigrar em 1828. Regressaria a casa em 1834, após a vitória dos liberais na guerra civil. Em 1835 era delegado do Procurador Régio no Juízo de Direito de Famalicão. Em 1837, transitou para as funções de Juiz de Direito Substituto em Guimarães, onde seria eleito deputado substituto em Outubro de 1838. Em Janeiro de 1841, foi despachado juiz de Direito de 1.ª Instância em Celorico de Basto, terra onde viria a falecer, no princípio de 1842.

Entretanto, tinha-se casado com Emília Ermelinda da Cunha Sampaio que, depois do nascimento do primeiro filho, José, nascido na casa paterna, em Cabeçudos, se instalaria em Guimarães, na residência de um tio, o cónego José de Abreu Cardoso Teixeira, na rua dos Mercadores (actual rua da Rainha D. Maria II). Seria aí que aguardaria a chegada do seu segundo filho, Alberto.

O cónego José Teixeira partilhava dos ideais constitucionais de Bernardino de Sampaio e Araújo. Também ele andou fugido às perseguições miguelistas, por ter sido pronunciado na devassa instruída na sequência do decreto de 15 de Julho de 1828. O seu nome estava inscrito no extenso rol dos liberais que foram citados, como ausentes, por alvará do Presidente da Alçada do Porto, para comparecerem perante a Justiça para “se livrarem das culpas e crimes por que estavam pronunciados pelas devassas de rebelião”. Continuaria na clandestinidade, integrando uma lista de 109 pessoas procuradas por crimes políticos, sob quem incidia a ameaça do degredo para os presídios africanos de Cabo Verde, Caconda, Bissau ou Pongo Andongo. Com a vitória de D. Pedro IV e de D. Maria II, em 1834, o cónego Teixeira estará do lado dos vencedores, sendo premiado com a conesia do Cónego Pedro de Morais Correia de Sá e Castro, que foi expulso, por ser partidário dos miguelistas. Faleceu na madrugada do Natal de 1843, quando contava 55 anos.

Tendo iniciado a sua formação escolar em Guimarães, com o seu irmão José, na aula de Tomás Guilherme (que, muito provavelmente, seria Tomás Guilherme de Sousa Pinto, depois director do jornal vimaranense Religião e Pátria), Alberto Sampaio foi inscrito, com 10 anos completos, no Colégio de João Luís Correia de Abreu, em Landim, Famalicão, próximo da casa de Boamense, em Cabeçudos, para onde entretanto se mudara a sua mãe. Curiosamente, e apesar da forte tradição liberal da sua família, a sua instrução foi entregue a um fervoroso partidário do absolutismo, João Luís de Abreu, que também andara expatriado por razões políticas, mas por motivos opostos aos que justificaram as perseguições ao seu pai e ao seu tio-avô.

[Texto também publicado aqui]

sábado, 1 de dezembro de 2007

A Sociedade Martins Sarmento na morte de Alberto Sampaio

No dia 2 de Dezembro de 1908, em reunião da Direcção da Sociedade Martins Sarmento, o seu Presidente, Pedro Guimarães, transmitiu a informação do falecimento de Alberto Sampaio, sócio honorário daquela instituição. Esta notícia, bem como as decisões então tomadas pela Direcção da Sociedade, consta na respectiva acta:

"Em sessão de 2 de Dezembro, o snr. Presidente disse que era com sentida mágoa que vinha comunicar à direcção o triste passamento do snr. dr. Alberto da Cunha Sampaio que esta Sociedade contava no número dos seus sócios honorários mais ilustrados e que mais se distinguiram pelos serviços que lhe deram maior impulso. Disse mais, que era largo o rol desses serviços, e que ele os prestara não só a esta Sociedade como a toda a cidade e concelho de Guimarães, avultando o da Exposição Industrial deste concelho, em 1884, para a qual trabalhou denodadamente, vencendo só por si muitos obstáculos, que então surgiram, conseguindo que esse acontecimento fosse uma glória para Guimarães como o foi para ele, seu principal promotor. Assíduo colaborador da Revista de Guimarães, órgão desta Sociedade, os seus artigos são verdadeiras provas da sua alta inteligência e saber, sendo depois de Martins Sarmento, o vimaranense que mais ilustrou a sua terra, como escritor primoroso, revelador duma alta capacidade mental. Que a sua perda era deveras para sentir por esta Sociedade, que muito lhe devia, e abria nos seus membros uma lacuna que tarde seria preenchida. Propunha que na acta desta sessão fosse exarado um voto de sentimento por tão triste incidente; que a direcção se fizesse representar no funeral que se realizaria na freguesia de Cabeçudos, concelho de Famalicão; que, no edifício desta Sociedade, houvesse as respectivas demonstrações fúnebres, e que, finalmente, se mandasse desde já pintar a óleo o retrato do ilustre extinto, como homenagem à sua memória. Esta proposta foi muito aplaudida e aprovada por unanimidade."

O retrato de Alberto Sampaio que figura no início desta nota, da autoria do pintor Mário Cardoso, é o que a Direcção da Sociedade Martins Sarmento decidiu mandar pintar na sua reunião de 2 de Dezembro de 1908.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Manifestação dos operários e industriais durante a Exposição de 1884

MANIFESTAÇÃO — Realizou-se ontem a que os artistas e industriais desta cidade tinham resolvido fazer, em demonstração de agradecimento aos promotores da brilhante exposição industrial de Guimarães.

À uma e meia hora da tarde principiaram a reunir-se os diversos grupos de operários e artistas na casa da Associação Artística.

Às 3 horas, estando já literalmente cheio o grande salão da Associação, estavam ainda muitos centenares de pessoas na rua de Gil Vicente, por não caberem lá dentro.

A essa hora principiou a pôr-se em marcha o cortejo.

Na frente ia uma banda de música, seguindo-se um industrial com a bandeira nacional arvorada, e desfilando depois numerosas massas de operários e artistas, da cidade e do concelho, que podiam calcular-se em mais de dois mil.

No couce ia outra banda de música.

A esta imponente massa juntava-se outra ainda maior de e povo e curiosos, talvez em número superior a quatro mil pessoas.

Os artistas, industriais e operários levavam no casaco um ramo de oliveira.

O cortejo seguiu pela rua de Gil Vicente, rua de Paio Galvão, largo ocidental do Toural, largo e Rua Nova de S. Sebastião, em direcção a Vila Flor.

No pátio dos jardins aguardava-o a Comissão Central promotora da exposição.

Chegado ali o cortejo levantaram-se calorosos vivas, entusiasticamente correspondidos por toda aquela enorme multidão.

As músicas seguiram então pela estrada para o átrio de entrada do palacete, em quanto os artistas e industriais subiam pelo jardim para a exposição, sempre no meio de entusiásticos vivas.

Depois da demora de duas horas em visita à exposição, tornou o cortejo a pôr-se em marcha, para vir, como veio, cumprimentar a Direcção da Sociedade Martins Sarmento, à sua casa do largo do Carmo, onde ela o estava esperando.

Ali repetiram-se os vivas e as saudações ao alto cometimento e aos nobres intuitos da Sociedade, depois do que o cortejo seguiu ainda para a rua de Santa Luzia, para saudar, em sua casa, o sr. dr. Alberto Sampaio, douto, esforçado e activo paladino da exposição, como presidente da respectiva comissão executiva dela.

Não estando S. Exa. em casa, o cortejo regressou à casa da Associação Artística, onde se dissolveu.

Em todos estes actos reinou sempre a maior ordem e o maior respeito, mostrando assim a nobre classe artística e industrial, quanto é digna de consideração, e quanto é nobre e entusiástica a sua grande alma.

[Notícia do Religião e Pátria de 25 de Junho de 1884]